Fisioterapia francesa “força” dor para tratar

Matéria escrita por Paulo Jácomo Negro, para a Folha de São Paulo, em 5 de outubro de 1992.

Fisioterapia francesa força dor para tratar

Os brasileiros possuem a principal característica para reabilitar pessoas com graves problemas ortopédicos e de postura-a sensibilidade. Essa é a conclusão de Philippe Emmanuel Souchard, 49, criador da RPG (Reeducação Postural Global), uma técnica revolucionária da fisioterapia.

Souchard veio ao Brasil para participar do Congresso Paulista de Fisioterapia e realiza o nono curso nacional de RPG. Para ele, os fisioterapeutas do país estão entre os melhores do mundo, pois têm o que considera essencial ao método: a capacidade de “entrar em comunhão com o corpo alheio e só expressar através dele”.

A técnica foi criada na França há 14 anos. Desde o começo, enfrentou fortes resistências dos fisioterapeutas tradicionais. Na abordagem dos problemas musculares, o corpo era tratado de forma segmentada. Uma dor no ombro era vista como um problema local, cujo tratamento podia ser reduzido aos músculos envolvidos diretamente na articulação.

A RPG é uma técnica que vê o sistema muscular como um todo. Para ela, os músculos se organizam em cadeias. Os especialistas identificam a cadeia afetada, tratam as causas e as conseqüências.

O organismo sempre escolhe posturas que minimizem a dor. Após uma entorse de tornozelo, por exemplo, os músculos se reacomodam para não forçar a junta. A batata da perna e parte da coxa se encontram. O quadril muda de posição e os músculos da coluna se encontram do lado do tornozelo afeado. O pescoço endurece e o ombro se eleva no lado oposto.Se o problema no tornozelo durar algumas semanas, a postura compensatória poderá se fixar.

Anos depois, esse mesmo ombro irá doer devido à contração crônica e retração de seus músculos. A terapia clássica, além de se limitar ao ombro, se baseia em exercícios que estimulam a contração e, a longo prazo, não suprimem a dor.

Já o RPGista desfaz a postura antidolorosa. Abaixa o ombro, desencurta o pescoço, estica a coluna, reequilibra o quadril e estende a perna. Isso provoca dor no mesmo tornozelo torcido anos atrás. O terapeuta identifica pontos críticos e descobre onde nasceu o problema.

O tratamento dura de seis meses a um ano. As sessões geralmente são individuais. Resultados positivos, que variam de acordo com a gravidade do problema, costumam surgir depois de dez sessões.

O paciente aprende posturas terapêuticas e exercícios para relaxar e alongar a musculatura. Uma consulta custa cerca de Cr$ 150 mil. Existem 500 RPGistas no Brasil. Os interessados devem perguntar onde o terapeuta aprendeu o método pois existem muitos “curiosos” sem treinamento completo. Os melhores profissionais têm diplomas de curso básico, superior e de especialização feitos com o próprio Souchard.

“ESPORTE É MULTIPLICAÇÃO DOS PROBLEMAS”, DIZ FISIOTERAPEUTA.
(O fisioterapeuta Philippe Souchard acredita que natação é o esporte menos agressivo)

Numa época em que o culto ao corpo é sinal de bem-estar, a opinião do fisioterapeuta Philippe Souchard sobre esportes surpreende. “Esporte é a multiplicação dos problemas, a agitação intensa de músculos que deviam ser relaxados”. E, de todos os exercícios, o “horror máximo” é a musculação excessiva do body building.

Segundo Souchard há músculos que ficam o tempo todo contraído (para manter a postura) e músculos relaxados e só contraem quando necessário.

Quando a musculatura rígida é excessivamente estimulada, provoca sem alongamento posterior.

“Temos uma resistência enorme às agressões, mas se repetirmos sempre os mesmos movimentos, o organismo irá compensar através da rigidez”, diz. Mas, segundo o fisioterapeuta, gostos devem ser respeitados. “E preciso, pelo menos, buscar um esporte que não seja tão terrível como o halterofilismo”. Para ele, a natação é o menos agressivo de todos.

O especialista em medicina esportiva André Pedrinelli também adverte contra exageros. Ele explica que os excessos desgastam o aparelho locomotor e podem trazer problemas.