COM
AS COSTAS LEVES
Cresce
a busca por alternativas capazes de acabar
com as dores na coluna sem remédio
nem tortura. Entre elas, a RPG ganha espaço
no Brasil.
POR
LUIZ OTÁVIO COM PATRÍCIA
ANDRADE
BASTA
UM TROPEÇÃO E PRONTO: você
torce o tornozelo. A dor - e isso é
quase inevitável - irá tensionar
a batata da perna até ela ficar
dura feito pedra. O joelho, em seguida,
passa a se dobrar ligeiramente, sem que
note, para poupar a área sofrida
de maiores impactos. Essa atitude inocente
faz uma perna ficar imperceptivelmente
mais curta que a outra. Aí é
a vez da bacia de se inclinar, tentando
resolver a disparidade.
Só
que a coluna não agüenta acompanhá-la,
ficando toda para um lado como se fosse
torre de Pisa. E daí dá
um jeito de compensar a inclinação
alheia fazendo uma curva para o lado oposto.
O tornozelo pode até ficar bom
depressa, mas a coluna, coitada, tende
a insistir no erro, um desvio conhecido
como lordose, uma das causas mais comuns
de dor nas costas.
A
estudante paulista Catarina Cagna, de
16 anos, exibe uma única pose:
“Deitada ou sentada, vendo tevê
ou lendo, eu só tinha uma posição.
Senão lá vinha aquela dor
subindo até a cabeça”,
relembra. Ela nunca tinha ouvido falar
da “tal da RPG” quando um
fisioterapeuta a indicou há seis
meses. Hoje é sua fã.
Vários
músculos podem se comportar como
se fossem um só.
BONITA
POR FORA, DOLORIDA POR DENTRO
Veja como uma postura incorreta bagunça
as suas costas
1
- NERVOS PRESSIONADOS
Uma posição esquisita
ou mesmo o nervosismo do dia-a-dia
podem contrair demais a musculatura.
Ela, então, comprime os nervos,
que podem socorro ao cérebro
- é a dor. |
2
- COLUNA DESVIADA
A resposta imediata do corpo é
procurar outra posição.
Ledo engano. Na tentativa de poupar
a área contraída, a
mudança pode empurrar as vértebras
da coluna. Elas também comprimem
o que está ao redor. Lá
vem mais dor. |
3
- SE O ERRO VIRA HÁBITO
As vértebras mal posicionadas
facilitam o deslocamento de amortecedores
existentes entre elas - os discos.
Esse escape é a famosa hérnia,
que aperta pra valer nervos bem compridos,
causando dor em todo o seu trajeto. |
A
idéia de que uma tremenda dor nas
costas poderia ser fruto de um acidente
banal ocorrido tempos atrás - como
uma torção do tornozelo
- já tem legiões de adeptos.
Ela, cá entre nós, nem é
tão nova. Nos anos 1950 a terapeuta
corporal francesa Françoise Mézière
já falava em cadeias musculares
– “um conjunto de músculos
com a mesma direção que
se sobrepõem como as telhas de
uma casa e se comportam como se fossem
uma estrutura única”, definida
a autora. Assim, a musculatura da penas
seria capaz de afetar a da nuca, lá
no alto, deixando o “telhado”
inteiro imaginado pela especialista a
ponto de desabar de dor.
VÁRIAS
LINHAS
A partir desse conceito, surgiram diversos,
como o GDS, que mistura psicoterapia e
coordenação motora, e o
da reconstrução corporal.
Mas, no BRASIL, nenhum se tornou tão
conhecido, nem de longe, quanto a RPG,
ou reeducação postural global,
criado em 1980 pelo francês Phillipe
Souchard. “Hoje há cerca
de 6 mil brasileiros se tratando com esse
sistema para se livrar da dor nas costas”,
avalia o fisioterapeuta baiano Oldack
Barros, presidente da Sociedade Brasileira
de RPG.
Antes
o foco era local da dor. Agora é
o corpo inteiro
Uma
escoliose atormentava as costas do estudante
paulista Pedro Silveira, de 16 anos. Por
sorte, o pai é fisioterapeuta e
levou o rapaz a um colega que trabalha
com RPG. Depois de dez meses exercitando
apenas três posições
dessa técnica, Pedro recebeu alta.”Só
faço uma sessão por mês
para ver se o corpo mantém a postura
correta”, diz.
“Há
mais pessoas buscando maneiras de resolver
a dor nas costas que não tratem
simplesmente a doença, mas o doente”,
observe o especialista José Luiz
Zaperoli, do Centro Brasileiro de Fisioterapia,
em São Paulo. De fato, fomos de
bier, coletes e massagens pesadas focam
o local da dor, deixando de lado posturas
do corpo como um todo - e essa postura
global, para Phillipe Souchard, “está
por trás de 80% dos problemas de
coluna”, diz ele, em entrevista
exclusiva à SAÚDE!
DA
CABEÇA AOS PÉS
No médico criado por ele só
existem oito posições de
alongamento. Mas elas já seriam
capazes de fazer as tais cadeias musculares
conviver harmoniosamente ao esticar suas
extremidades. O objeto é remodelar
a musculatura de braços, pernas,
abdômen, tórax e pescoço
ao longo dos 60 minutos de uma sessão
semanal. Nela, diga-se, o paciente se
limita a praticar duas ou três dessas
posturas. “ Isso porque cada uma
delas é feita durante 20 ou 30
minutos. Mas é tudo suave”,
diz ele. Esse tempo é um prazo
para o cérebro gravar um modelo
corporal novo, apagando os erros e as
tensões do passado.
O
MAGO DA POSTURA
O tom professoral domina a retórica
de Philippe Souchard. Também pudera.
Ele passa a maior parte do tempo viajando
para formar seus discípulos, que
já somam 7 mil fisioterapeutas
espalhados por 11 países. E admite
que às vezes seu corpo padece.
“Não é na poltrona
de um avião que vou conseguir cuidar
dele”, lamenta. Quando está
na França, seu endereço
é a pequena cidade medial de Saint
Mont. Ninguém ouse perguntar a
sua idade: “já passei dos
50”, é tudo o que diz. Mas,
para ele e para seus seguidores na RPG,
a juventude pode ser definida por uma
única expressão - “músculos
flexíveis”.
Em
vez de reforçar os músculos,
a meta é esticá-los
A
comerciante paulista Célia Nahas,
de 33 anos, foi por um bom tempo fiel
às massagens: “Mas o relaxamento
era apenas temporário e as dores
na coluna logo voltavam”. Tudo piorou
quando ficou grávida – e
logo gêmeos!
“Já estava andando inclinada
e meio corcunda. E daí fui procurar
reeducar minha postura”, diz ela,
animada com os resultados visíveis
do tratamento.
Para
a psicóloga paulista Ana Maria
Heyemeyer, com formação
em cadeias musculares, a dor nas costas
surge “porque nosso corpo foi programado
para movimentar-se”. Sentado por
muito tempo, ele contrai a musculatura
nas redondezas da coluna a fim de compensar
a pressão sobre suas vértebras.
“Já os ombros sofrem porque
têm de uma cabeça ligeiramente
inclinada para a frente”, explica.
Como não dá para fugir da
realidade - e ela é, muitas vezes,
uma cadeira de escritório -, os
defensores da teoria das cadeias musculares
afirmam que mesmo quem vive na mais correta
das posturas pode perder esse trunfo sem,
digamos, cuidados de manutenção.
Em outras palavras, alongamentos. “No
dia-a-dia, nossas costas são como
calças compridas após 20
horas de vôo”, compara Souchard.
“Ficam cheia de dobras e precisam
ser esticadas.”
A
POLÊMICA DOS ESPORTES
A musculação está
na linha de fogo dos fisioterapeutas adeptos
da RPG. “Se eu trabalho um bíceps,
esse esforço será compensado
em outro músculo da sua cadeia,
que pode estar nas costas ou no pescoço”,
exemplifica Oldack Barros. Alguns esportes
têm o mesmo efeito: sobrecarregam
demais certos músculos e desprezam
outros, por causa dos movimentos repetitivos,
como é o caso do tênis e
do golfe, que para piorar ainda exigem
torções de coluna dos praticantes.
Nem o surfe escapa, segundo uma pesquisa
que acaba de ser divulgada pela Universidade
Federal de São Paulo. “Aquela
força nos braços que o surfista
faz para vencer a maré e pegar
a melhor onda deixa os ombros arqueados”,
diz a fisioterapeuta Marília Andrade,
autora do trabalho. Ou seja, aquele ar
de menino do Rio pode ser substituído
por um estilo corcunda, candidato a artrose.
Matéria
Publicada na revista SAÚDE!
Outubro/2001